terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

O Demônio de Todos Nós

Existem alguns escritores que são como “fortificantes para a alma” e devem ser consumidos de tempos em tempos. Para mim Edgar Alan Poe é um destes, devendo ser relido pelo menos uma vez ao ano ou sempre que uma crise de absoluta falta de leitura de qualidade se faça presente.
Em função de um sarau literário, voltei a ler um conto específico de Poe que sempre me instigou reflexões. O conto tem como título “O demônio da Perversidade” e trata de um tipo de sensação, de inclinação que muitas vezes sentimos sem entender e, até mesmo, sem admitir sua existência, pois não parte de nosso raciocínio lógico e consciente.
A introdução define este sentimento como parte irremediavelmente presente da alma humana:

“Ao considerarem as faculdades e impulsos dos motores primordiais da alma humana, os frenologistas não conseguiram estabelecer a função de uma tendência, uma propensão que, embora obviamente existindo como um sentimento radical, primitivo e irredutível, foi igualmente ignorada por todos os moralistas que os precederam. Na pura arrogância da razão, todos nós as desdenhamos. Permitimos que sua existência escapasse ao exame de nossos sentidos unicamente por falta de crença, por não termos fé – qualquer que fosse essa fé, seja na Revelação divina, seja na milenar Cabala. A idéia dela nunca nos ocorreu, simplesmente porque parecia supérflua. Não encontrávamos necessidade para tal impulso, para tal inclinação”.


E continua mais adiante descrevendo este impulso como “princípio inato e primitivo das ações humanas, algo que denominaremos perversidade, na falta de um termo melhor”.

“Através de seus estímulos, agimos sem um objetivo compreensível; ou, se quisermos entende-lo como uma contradição em termos, podemos modificar a proposição para dizer que. Através de seu estímulo, agimos pela razão de que não deveríamos agir.”
Em teoria, nenhuma razão poderia ser mais irracional, mas, de fato, nenhuma existe que seja mais forte. Em certas mentes, sob determinadas, torna-se completamente irresistível. Assim como tenho certeza de que respiro, sei que a consciência do certo ou do errado de uma ação é freqüentemente a única força incontestável que nos impele para sua realização; e nos impele isoladamente sem que nada mais o faça.....É um impulso radical e primitivo - um impulso elementar”

Poe é um homem capaz de descrever como ninguém o raciocínio puramente lógico como mostra seu personagem Auguste Dupin do conto “Os Crimes da Rua Morgue” que inspirou, entre outros, o Shelock Holmess de Conan Doyle. Apesar disso, cria um nome e disserta a respeito do sentimento mais ilógico do ser humano e que, muitas vezes, acaba por arriscar sua própria segurança em função de uma fascinação pelo terrível, pelo assustador.

“Paramos à beira de um precipício. Nossa visão se projeta para o abismo, somos tomados por um assombro de náusea e vertigem. Nosso primeiro impulso é afastar-nos do perigo. Sem a menos explicação, permanecemos ali. Lentamente, nosso enjôo, nossa tontura, nosso horror se mesclam a uma nuvem de sentimentos indizíveis......
Por mais que examinemos estas e outras ações semelhantes, verificaremos que resultam unicamente do espírito da Perversidade. Nós perpetramos estes erros terríveis meramente porque sentimos que não devemos.


No decorrer do conto Poe descreve a mente de um assassino e sua fixação pelo próprio crime. Este sentimento vai desde a formulação e execução do crime perfeito que leva vários meses sendo planejado até se cobrir qualquer possibilidade de descoberta, até o desenvolvimento de um impulso irresistível de contar a todos o seu espetacular feito.

O assassino começa a entrar em um processo de loucura, onde o “demônio da perversidade” o impele tornar seu crime público. Mesmo sabendo que este seria o seu fim o assassino não é capaz de resistir a esta força que se torna maior que seu sentimento de auto-preservação.
O tema da loucura advinda do demônio da perversidade é recorrente no trabalho deste escritor que ainda trata sobre isso nos contos “O coração Denunciador” e em um dos meus preferidos que se chama “O Gato Preto”.

O interessante é que em nenhum destes contos Poe considera uma fonte externa que serviria de tentação aos humanos sob a forma de um demônio no sentido religioso da palavra. Na verdade ele considera que este instinto primordial é parte da natureza humana.
Se nos observarmos mais detidamente e questionarmos as razões que nos levam a tomar certas atitudes e decisões, talvez seja possível identificar e observar este demônio interno que carregamos conosco, muitas vezes alimentando e obedecendo sem perceber.

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