Esta semana re-iniciei as aulas na faculdade onde trabalho. Quando entrei na sala dos professores, uma colega me interpelou e disse: - Niara, eu quase liguei pra ti estas férias! Tu acreditas que deixaram uma cria com três gatinhos no quintal da minha casa e eu juntei! Eu nunca tinha tido um gato, agora tenho aquela que peguei antes das férias e estou com vontade de ficar com um pretinho, que acho que será peludo.
Eu dei risada e disse: - Pois eu também fiquei com vontade de te ligar porque estava na Praia e encontrei um cachorrinho no quintal da casa onde estávamos (se é que podemos chamar o lugar de casa). Ele estava morrendo de fome e mal conseguia ficar em pé. Eu fiquei morrendo de pena e trouxe para minha casa. A idéia era ficar com ele até conseguir um novo dono, mas acabei me apaixonando e talvez fique com ele.
Nós duas achamos engraçada a situação, pois, apesar de nós duas gostarmos de animais, nossas preferências eram diametralmente opostas: eu gosto de gatos e ela de cachorros. Até pouco tempo atrás ela tinha quatro cães e eu, duas gatas. Ela disse: - Pois é, estou perdendo minha personalidade, eu nunca tive gato e agora já quero ter o segundo. E eu: - É verdade eu nunca criei um cãozinho (o Toby está com 2 meses) e agora me apeguei a este e não sei se vou ter coragem de doa-lo.
Esta situação me chamou a atenção porque nós duas estamos lidando com situações inéditas na nossa vida, pois já tínhamos nos auto-intituladas donas de gato (no meu caso) e dona de cachorros (no caso dela). Esta situação perdurou como uma sentença imutável até que a vida nos fez deparar com situações em que foi necessário enfrentar e reavaliar nossos pontos de vista.
Quando nos definimos enquanto seres humanos, criamos uma série de definições às quais nos apegamos ferrenhamente tentando assim definir nossa personalidade. No nosso caso, este apego não criou nenhum mal, mas podemos ver que estas simples preferências podem sim nos causar tristeza, sensação de inadequação, e dificuldade de readaptação. A flexibilidade necessária para enfrentarmos diversas situações pode ficar seriamente danificada se insistirmos em manter estes conceitos imutáveis e como verdades absolutas.
Muitas vezes também estas definições nos levam a consumir produtos que “nos definem enquanto pessoa”, como é o caso da mobília do apartamento do personagem de Edward Norton no filme Clube da Luta. Compramos roupas e bolsas de determinada marca, maquiagem, automóvel, na esperança que isso venha a compor um perfil a partir do qual nos comunicamos com o mundo.
Se observarmos a realidade mundial contemporânea, vemos estes conceitos podem trazer conseqüências devastadoras como o caso do fundamentalismo religioso, da violência de torcidas organizadas no futebol, do preconceito seja ele racial, social, referente a preferências sexuais, etc. As pessoas se definem segundo coisas que são externas a elas e, com o tempo, acabam por considerar isso como verdades absolutas e parte fundamental de si mesmos. Quem não tem as mesmas referencias acaba por sofrer violência tanto física, quanto moral.
Já dizia o antigo ditado: “só não muda de idéia quem não as tem”. É muito raro que uma pessoa consiga viver sem criar uma série de conceitos sobre si mesma. As preferências vão se formando ao longo tempo de acordo com a história de cada um e as coisas com as quais tem contato. A grande dificuldade do ser humano talvez seja visualizar estas escolhas simplesmente como elas são: preferências que podem e devem ser questionadas e mudadas sempre, mesmo que signifique redefinir a si mesmo.
domingo, 18 de março de 2007
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